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segunda-feira, 12 de março de 2012

Skydive Lake Wanaka

Marina Xavier Barreto - 41112905

Lembro-me como se fosse ontem. Foi em Dezembro do ano de 2009. Eu chamava aquele ano de “dois mil e NOVa Zelândia”, a junção do melhor ano e do melhor lugar que conheci em minha vida.  
                Eu havia escolhido a hora perfeita: o sol a pino, nenhuma nuvem no céu e uma temperatura extremamente agradável. Eu e meu primo, que havia ido me buscar e se certificar de que eu não ficaria lá pra sempre, entramos naquele lugarzinho - que embora exalasse adrenalina, era um tanto quanto aconchegante - já um pouco nervosos. O nome era “Skydive Lake Wanaka” (http://www.skydivewanaka.com/), o que já deixava clara a intenção de todos que ali entravam.
A recepcionista nos recebeu com um enorme sorriso e uma estranha – tendo em vista o comportamento “retrancado” do povo neozelandês - simpatia. Acertamos todas as partes burocráticas e logo fomos apresentados aos nossos instrutores. Gente finíssima os dois. Sentamos em um sofá, no canto do estabelecimento, para que assistíssemos a um vídeo explicativo, ou seja, um vídeo o qual explicaria e evidenciaria como seria o salto e o que poderia acontecer caso algo desse errado. Resumindo: um vídeo que devia fazer com que, no mínimo, metade das pessoas desistisse de se jogar naquela aventura.
Colocamos as vestes especiais e fomos encaminhados à parte exterior da loja. O meu instrutor, trajando roupas semelhantes às minhas, separou-me de meu primo para que pudesse registrar, por meio de um vídeo, tudo o que aconteceria a partir dali. Ele me fez a seguinte pergunta: “Gostaria de dizer algo aos seus pais e amigos antes de pular?”. Centenas de coisas passaram pela minha cabeça. Fui alertada de que poderia ficar surda, com dor de cabeça durantes vários dias e, um pouco menos importante, até morrer. Limitei-me a dizer “Mãe e pai, se algo acontecer, eu amo vocês”.
Fomos então para o pátio onde entraríamos no helicóptero que nos levaria àquela experiência de vida ou morte. Entramos nele na ordem inversa de que iríamos saltar: primeiro eu, logo em seguida um estranho, e meu primo por último. Nos sentamos em frente e de costas – praticamente no colo – para nossos respectivos instrutores.  Foi então que decolamos. Eu conseguia sentir todos os pêlos do meu corpo se colocarem de pé. Minhas mãos suavam e eu podia jurar que meu companheiro de salto ria de mim disfarçadamente. Tudo o que eu sentia se juntou em um lugar só do meu corpo, no estômago, me fazendo sentir uma enorme vontade de vomitar uma mistura de medo e excitação.
Foram 15 minutos subindo até alcançarmos a altura estipulada para o salto: 15 mil pés. Eu conseguia ver água, terra e plantas, mas tudo parecia surreal demais, intocável demais. Foi quando o primeiro se atirou porta abaixo. Senti uma vontade imensa de agarrá-lo, de impedí-lo de fazer aquela burrada. Eu já não tinha mais tanta certeza de que eu realmente queria fazer aquilo, me lançar sobre um lago e desafiar a morte sem o mínimo de pudor.  
Foi quando meu raciocínio foi interrompido. O homem desconhecido se lançou, ou melhor, foi lançado pelo instrutor porta à fora. Eu pude sentir o medo dele. A vontade incontrolável de se segurar na porta e só sair dali de dentro quando o helicóptero pousasse novamente em terra firme.
 Me dei conta de que eu era a próxima. Meu corpo inteiro ficou frio e pesado. Lágrimas se formavam no canto dos meus olhos, prestes a cair a qualquer momento. Meus sentidos estavam mais aguçados. Minha boca virou um deserto. Todos os meus músculos enrijeceram. Fiquei ofegante. A pressão nos meus ouvidos parecia ainda maior. Fui levada, quase a força, até a porta. O instrutor fez os últimos ajustes nas correntes que nos prendiam e nos tornavam um corpo só. Deitou minha cabeça para trás, encostando-a em seu ombro direito e me orientou a dobrar minhas pernas  e a abrir os braços.
Respirava como nunca havia respirado antes, tentando puxar o máximo de oxigênio que conseguia, afinal, podia ser a última vez que eu respiraria de fato. Senti o chão fugir dos meus pés e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, pulamos. Os minutos que se seguiram foram inexplicáveis. Primeiro a queda livre. Aquela sensação inaudita de estar voando. Meu corpo e a gravidade atuando juntos, se entrelaçando delicadamente em direção ao solo numa velocidade de 200kph. Eu sorria e mandava beijos pra câmera. Eu nunca fui tão feliz.
Segundos depois, o paraquedas foi aberto. Eu nunca senti nada parecido. Nenhum barulho, nada fora do lugar. Aquele silêncio eloquente ecoava em meus ouvidos e dizia muito mais do que outros sons jamais haviam me dito. Eu sentia a paz penetrando por todos os meus sentidos. Meu coração batia como música, trilha sonora para aquele momento. O verde das árvores, o azul do lago e o marrom da terra nunca foram tão vívidos. Eu era capaz de tocar tudo que estava a minha volta apenas com os meus olhos. Tudo ali era possível.
Aterrissamos. Primeiro os pés dele, depois os meus. Demos alguns passos até sermos libertados das correntes que nos prendiam. Eu nunca me senti tão livre. Sentia-me vitoriosa, realizada, e percebi que minha decisão inconsequente foi a mais sensata de todas que já havia tomado na vida. Sentir nunca foi tão significante quanto naquele dia.

Acabando de arrumar a roupa

Eu e meu primo com medo

"Mãe e pai, se algo acontecer, eu amo vocês"

A caminho do helicóptero

Após o salto
Lake Wanaka

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