Marina Xavier Barreto - 41112905
Lembro-me como se
fosse ontem. Foi em Dezembro do ano de 2009. Eu chamava aquele ano de
“dois mil e NOVa Zelândia”, a junção do melhor ano e do melhor lugar que
conheci em minha vida.
Eu havia escolhido a hora perfeita: o sol a pino, nenhuma nuvem no céu e
uma temperatura extremamente agradável. Eu e meu primo, que havia ido
me buscar e se certificar de que eu não ficaria lá pra sempre, entramos
naquele lugarzinho - que embora exalasse adrenalina, era um tanto quanto
aconchegante - já um pouco nervosos. O nome era “Skydive Lake Wanaka” (http://www.skydivewanaka.com/), o que já deixava clara a intenção de todos que ali entravam.
A
recepcionista nos recebeu com um enorme sorriso e uma estranha – tendo
em vista o comportamento “retrancado” do povo neozelandês - simpatia.
Acertamos todas as partes burocráticas e logo fomos apresentados aos
nossos instrutores. Gente finíssima os dois. Sentamos em um sofá, no
canto do estabelecimento, para que assistíssemos a um vídeo explicativo,
ou seja, um vídeo o qual explicaria e evidenciaria como seria o salto e
o que poderia acontecer caso algo desse errado. Resumindo: um vídeo que
devia fazer com que, no mínimo, metade das pessoas desistisse de se
jogar naquela aventura.
Colocamos
as vestes especiais e fomos encaminhados à parte exterior da loja. O
meu instrutor, trajando roupas semelhantes às minhas, separou-me de meu
primo para que pudesse registrar, por meio de um vídeo, tudo o que
aconteceria a partir dali. Ele me fez a seguinte pergunta: “Gostaria de
dizer algo aos seus pais e amigos antes de pular?”. Centenas de coisas
passaram pela minha cabeça. Fui alertada de que poderia ficar surda, com
dor de cabeça durantes vários dias e, um pouco menos importante, até
morrer. Limitei-me a dizer “Mãe e pai, se algo acontecer, eu amo vocês”.
Fomos
então para o pátio onde entraríamos no helicóptero que nos levaria
àquela experiência de vida ou morte. Entramos nele na ordem inversa de
que iríamos saltar: primeiro eu, logo em seguida um estranho, e meu
primo por último. Nos sentamos em frente e de costas – praticamente no
colo – para nossos respectivos instrutores. Foi então que decolamos. Eu
conseguia sentir todos os pêlos do meu corpo se colocarem de pé. Minhas
mãos suavam e eu podia jurar que meu companheiro de salto ria de mim
disfarçadamente. Tudo o que eu sentia se juntou em um lugar só do meu
corpo, no estômago, me fazendo sentir uma enorme vontade de vomitar uma
mistura de medo e excitação.
Foram
15 minutos subindo até alcançarmos a altura estipulada para o salto: 15
mil pés. Eu conseguia ver água, terra e plantas, mas tudo parecia
surreal demais, intocável demais. Foi quando o primeiro se atirou porta
abaixo. Senti uma vontade imensa de agarrá-lo, de impedí-lo de fazer
aquela burrada. Eu já não tinha mais tanta certeza de que eu realmente
queria fazer aquilo, me lançar sobre um lago e desafiar a morte sem o
mínimo de pudor.
Foi
quando meu raciocínio foi interrompido. O homem desconhecido se lançou,
ou melhor, foi lançado pelo instrutor porta à fora. Eu pude sentir o
medo dele. A vontade incontrolável de se segurar na porta e só sair dali
de dentro quando o helicóptero pousasse novamente em terra firme.
Me
dei conta de que eu era a próxima. Meu corpo inteiro ficou frio e
pesado. Lágrimas se formavam no canto dos meus olhos, prestes a cair a
qualquer momento. Meus sentidos estavam mais aguçados. Minha boca virou
um deserto. Todos os meus músculos enrijeceram. Fiquei ofegante. A
pressão nos meus ouvidos parecia ainda maior. Fui levada, quase a força,
até a porta. O instrutor fez os últimos ajustes nas correntes que nos
prendiam e nos tornavam um corpo só. Deitou minha cabeça para trás,
encostando-a em seu ombro direito e me orientou a dobrar minhas pernas
e a abrir os braços.
Respirava
como nunca havia respirado antes, tentando puxar o máximo de oxigênio
que conseguia, afinal, podia ser a última vez que eu respiraria de fato.
Senti o chão fugir dos meus pés e, antes que eu pudesse dizer qualquer
coisa, pulamos. Os minutos que se seguiram foram inexplicáveis. Primeiro
a queda livre. Aquela sensação inaudita de estar voando. Meu corpo e a
gravidade atuando juntos, se entrelaçando delicadamente em direção ao
solo numa velocidade de 200kph. Eu sorria e mandava beijos pra câmera.
Eu nunca fui tão feliz.
Segundos
depois, o paraquedas foi aberto. Eu nunca senti nada parecido. Nenhum
barulho, nada fora do lugar. Aquele silêncio eloquente ecoava em meus
ouvidos e dizia muito mais do que outros sons jamais haviam me dito. Eu
sentia a paz penetrando por todos os meus sentidos. Meu coração batia
como música, trilha sonora para aquele momento. O verde das árvores, o
azul do lago e o marrom da terra nunca foram tão vívidos. Eu era capaz
de tocar tudo que estava a minha volta apenas com os meus olhos. Tudo
ali era possível.
Aterrissamos.
Primeiro os pés dele, depois os meus. Demos alguns passos até sermos
libertados das correntes que nos prendiam. Eu nunca me senti tão livre.
Sentia-me vitoriosa, realizada, e percebi que minha decisão
inconsequente foi a mais sensata de todas que já havia tomado na vida.
Sentir nunca foi tão significante quanto naquele dia.
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| Acabando de arrumar a roupa |
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| Eu e meu primo com medo |
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| "Mãe e pai, se algo acontecer, eu amo vocês" |
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| A caminho do helicóptero |
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| Após o salto |
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| Lake Wanaka |






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