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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Instinto: por acaso

“Quando o esconderijo deixa de ser alternativa de fuga, se vai pra onde?”
Terminar o ensino médio e entrar na faculdade é um grande passo para qualquer pessoa. Tratando-se de um curso de Comunicação, é o que nossos avôs chamariam de “um passo maior que as pernas”.
Todos recebemos, durante os anos de escola, uma noção, ainda que por vezes superficial, do velho dilema informação X dominação, ou do “quanto mais ignorante a massa, maior a facilidade de manipulá-la”. Embora tais afirmações pareçam quase clichês, acredito que ninguém está de fato preparado para entender tudo que se encontra por trás disso.
A disciplina de Análise da Imagem II faz exatamente isso: escancara nossas ilusões sobre o mundo, abre nossos olhos à impotência do ser humano diante de seu próprio sistema econômico – que se apóia em um universo onde todos desejam se diferenciar e tornam-se, portanto, um gigantesco exemplo da mais pura padronização, calcados em uma idéia de controle e liberdade que não passa de ilusão. Diante tais revelações e após uma quase lavagem-cerebral de estudo intenso sobre o assunto, a vontade que se deleita sobre os estudante de Comunicação (embora eu só possa falar por mim) é de assumir uma posição agora então considerada medíocre só para poder acreditar que o mundo tem algo de bom e que existe alguma saída, alguma solução para esse todo indiferenciado, manipulado, que transforma tudo – inclusive a si próprio – em mercadoria, valorizando a aparência, subordinando-se e incorporando-se ao sistema de tal maneira que dele torna-se escravo, em um ciclo infinito de massificação, padronização, equalização, alienação, banalização (e muitos outros ãos).
            Nesse processo, que se poderia chamar de resgate a alguma esperança diante da atualidade – vista agora de outra maneira –, deparei-me, por acaso, com um filme do diretor Jon Turteltaub, que descobri, mais tarde, ser baseado no best-seller “Ishmael”, de Daniel Quinn, chamado Instinto.
            Foi então que o acaso me levou ao óbvio. O filme, estrelado por Anthony Hopkins e Cuba Gooding Jr., conta a história de um antropólogo que desaparece e é preso, dois anos depois, em Ruanda, acusado de matar e ferir guardas florestais. De volta aos Estados Unidos, o antropólogo Ethan Powell (Anthony Hopkins) é encarcerado em uma prisão composta basicamente por psicopatas. O caso de Ethan chama a atenção do psiquiatra Theo Caulder (Cuba Gooding Jr.) devido ao fato do paciente se recusar a falar. Theo enxerga em Ethan uma oportunidade de se promover e afirmar sua carreira como psiquiatra, tendo em vista as dificuldades que o caso apresenta.
            Descobre-se, então, que o antropólogo passou dois anos observando e estudando os gorilas e que foi aceito por eles como parte da família. Sendo assim, viveu como eles e construiu, a partir dessa experiência, uma nova visão do próprio mundo – que deixou de ser civilizado e passou a ser selvagem –; realocando valores e importâncias.
            Após algumas sessões, o relacionamento entre o antropólogo e o psiquiatra melhora, Ethan volta a falar e o que se percebe, então, é uma alteração na relação de ambos: Ethan acaba tornando-se o psiquiatra de Theo, questionando tudo que ele – e todos nós – valorizamos, o mundo em que vivemos, as decisões e escolhas que fazemos. O antropólogo Ethan Powell encontrou a paz em meio àqueles que nós, civilizados, costumamos chamar de selvagens e passou a compreender a superioridade dos animais diante dos homens, que não matam, não “consomem”, não brigam por vaidade, por ignorância, por orgulho; apenas por necessidade de sobrevivência. Ethan mostra a fragilidade de tudo que Theo acredita, a superficialidade e futilidade das razões que o fazem tomar as decisões de sua vida, desde as mais banais até as que ele considera mais importantes.
            O filme, de 1999, aponta para os mesmos questionamentos que a disciplina de Análise da Imagem nos faz pensar. E a minha tentativa de fuga desses questionamentos acabou tornando-se apenas mais um exemplo dos mesmos; o filme tornou-se uma ilustração quase perfeita daquilo que nós, estudantes de Comunicação, precisamos estar atentos.
            E o fim da história é surpresa! Se é que existe, de fato, algo que ainda possa nos surpreender nesse mundo moderno cuja percepção do homem é conduzida pela mercadoria e sua coisificação não permite mais a distinção do que é objeto e do que é sujeito. Sendo assim, a questão inicial “Para onde vamos quando o esconderijo deixa de ser alternativa de fuga?” continua sem resposta.

Luana Della-Flora – matrícula: 41112557

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